terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Rio Grande do samba

Conforme eu previa, o domingo foi mesmo histórico em Porto Alegre. A elegância, o talento, o carisma, o samba, a história viva que têm – que são – Garacy e Monarco, tudo envolto no manto da simplicidade sincera (eis o segredo, meus amigos), contribuíram para um fim de semana de sonhos para os amantes do samba e da cultura brasileira na capital gaúcha.

Como infelizmente não pude estar lá, deixo o meu amigo Eduardo Gerhardt, o idealizador desse troço (e que me mandou as fotos), contar, e do jeito como me relatou em emocionado e-mail, às tantas da madrugada de ontem, segunda-feira. E assim começamos este dezembro, na véspera do Dia Nacional do Samba e na semana em que - ai, meu Deus! - o meu nome é nervosismo e ansiedade, por conta do meu Flamengo – que terá, não tenham dúvida e não acreditem nas bobagens que andam dizendo, um jogo dificílimo no domingo.

Fala, xará:

“Cara, ontem, quando começamos a tocar, o olho encheu de água. Com toda a galera cantando os sambas da primeira até a última frase. Era, literalmente, o samba na rua! Na rua mesmo! Do lado do povo. Modéstia à parte, a nossa roda estava foda! Trio de tamborins, agogô, frigideira, reco-reco de madeira, caixa de guerra, atabaques, cuíca... Uma cadência violenta!

Quando o Monarco começou a cantar, muita gente chorava. Teve gente que veio de cidades a 300 km de Porto Alegre para participar desse momento. Ele improvisou, mandou coisas fora do 'script', e a cada grave que ele soltava, a galera vinha abaixo.

O clima estava tão bom que o Monarco puxou até umas marchinhas de carnaval, velho! Acreditas? Aí ele ganhou o povo de vez.

Depois da linda apresentação, foram pro hotel. Aí, deu uns 30 minutos, quem volta pro samba? Guaracy! Do alto da sua simplicidade sem igual, ele chega 'à paisana', senta do meu lado e comenta: 'Edu, o Monarco se arrepiou com esses meninos aqui, hein!'

Esse foi o clima... Por isso fizemos questão (e faremos sempre!) de que fosse uma festa na rua, no meio do povo, de onde o samba nunca deveria ter saído.

Foram dois dias que renderam dois almoços e duas jantas de muitas histórias. O Monarco é mais fechado, chega mais quieto... Mas logo, logo se solta e conta histórias maravilhosas, de que até Deus duvida, sobre Noel, Ismael, Paulo da Portela, Cartola e cia...

Já o Guaracy é casa cheia! Tranqüilo, sempre sorrindo, topando todas. Chegou no hotel e já fomos pra um boteco, pra uma mesa na calçada, tomar umas e bater papo.

Registramos muita coisa dos caras, daqueles vídeos que daqui a 30 anos servirão para contar histórias. Só pra dar um exemplo: no churrasco de sábado à noite (em que o Monarco disse que não cantaria, mas soltou a voz mais que todo mundo, com uma história atrás da outra), ele falava sobre Mangueira, Cartola... Aí, pediu o tom ao Guará e mandou "O mundo é um moinho", seguida de "As rosas não falam". Ali, num banquinho, nos fundos da garagem da casa de um dos parceiros da nossa roda. Esse foi o nosso 'ensaio' para o dia seguinte...”
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Leiam, ainda, o que escreveu a respeito o jornal Zero Hora (e vejam vídeos!) - AQUI.
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Então, de novo: pau na canalha e viva a verdadeira Portela!

sábado, 28 de novembro de 2009

Monarco e Guaracy já encantam o Sul



Disse, no post que está aqui embaixo, que a semana do Dia Nacional do Samba começaria em grande estilo segunda agora, com roda especial do Renascença etc. etc. Menti. Como já tinha lhes contado em outubro, em Porto Alegre espera Monarco e Guaracy (AQUI), tal semana terá início mesmo é amanhã, 29/11, um domingo que entrará para a história da capital gaúcha.

Volto ao tema porque agora há pouco, em plena tarde de um sábado insuportavelmente abafado, estava fazendo um programa maravilhoso - compras no supermercado -, quando o celular vibrou, anunciando mensagem. Abri e me deparei com o seguinte:

- Estamos almoçando com Monarco e Guaracy. Valeu a força! - reportava-me o futuro papai, meu amigo e xará gaúcho Eduardo Gerhardt, assinando por si e pela sua Anelise.

Eu, que há um mês cheguei a quase comprar uma passagem para ir até lá neste fim de semana, fiquei à beira de ter um troço. "A força" a que ele se refere é tão somente o fato de, atendendo a um pedido do meu amigo, ter procurado e mandado para ele os contatos do Monarco, a partir dos quais ele e os parceiros viabilizaram o show que os dois portelenses farão neste domingo "na roda de samba, na rua, sem palco, sem ingresso, para o povo", como muito bem vem ressaltando o Edu. Senti-me um pouquinho lá, em espírito...

Emocionado, liguei na hora para o xará e desejei todo o sucesso à empreitada, ousada - e bonita - que só ela. O meu amigo completou dizendo que, à noite, eles levariam os portelenses para uma "churrascada" - quase chorei ao imaginar O Maior Grave do Samba cantando em terras gaúchas, para poucos privilegiados, na véspera de sua apresentação aberta... Prometeu-me fotos, desligamos.

Alguns minutos depois, o coração tentando se acalmar - mesmo com uma vontade danada de me enfiar num avião o mais rápido possível -, quase desmaiei no meio de águas sanitárias, rolos de papel higiênico, vanish O2, amaciantes e que tais. Aconteceu que, depois de novo tremelique do telefone, descortinou-se a seguinte mensagem:

- Indo pro hotel, tive que baixar o som do carro, pois Monarco cantava, à capela, um samba do Paulinho da Viola. PQP! - exultava o Edu, imagino eu que à beira de um enfarte.

Pau na canalha e salve a verdadeira Portela!

Até.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A 'semana do samba' começa no Andaraí

A segunda-feira agora abrirá em grande estilo a semana do Dia Nacional do Samba – que cai na quarta, dia 2. Destaco a grande festa que a roda do Samba do Trabalhador fará, desde as primeiras horas da tarde.

A ótima e querida mesa do Renascença receberá “oficialmente” vários artistas que lançaram discos neste ano mas que não encontram tanta facilidade na hora de divulgar o trabalho – essas coisas que ainda existem no Brasil com quem é bom... Na verdade, são alguns dos baitas compositores e cantores que estão sempre por lá e pelas rodas que valem à pena na cidade, mas com essa – digamos - roupagem de lançamento, como me disse o Moacyr Luz:

- São pessoas maravilhosas que durante o ano estão pressentes na nossa roda e agora, nessa semana festiva, serão homenageadas. Gente como Dorina, Toninho Gerais, Moyseis Marques, Dunga, Efson, João Martins e por aí afora.

Programaço.

'Novos bambas do velho samba'

É meu amigo Cesar Tartaglia (saudade, hein, parceiro!) quem conta o que aconteceu este ano no concurso de novos talentos promovido pelo Carioca da Gema, sempre um grande serviço prestado à renovação do samba.

O Tarta garante: mais uma vez, tem coisa boa aí - confiram AQUI.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um 'baluarte' em momento de lazer...

Plagiando descaradamente o brilhante 'Ego do Buteco' (por exemplo, aqui!), de Eduardo Goldenberg, não posso deixar passar tal momento, de um grande e querido vagabundo. Edu, com a sua permissão, que a do Cláudio eu já pedi...
Cláudio Renato, o bardo de Brás de Pina, tricolor, é flagrado vestido com o manto do América jogando pingue-pongue em belo quintal suburbano, durante churrasco de aniversário do coleguinha Ricardo França.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Aprende mais um pouco, goleiro!

Trechos de entrevistas concedidas, pelos três jogadores citados abaixo, a Carlos Eduardo Mansur e Luciano Cordeiro Ribeiro, para o recém-lançado livro Meu Maior Prazer - Histórias de Uma Paixão.

ZICO:

"[Quando estava em campo], pensava até mais nas pessoas que não estavam ali. O Brasil inteiro. Muita gente mandava carta para mim, pessoas que nem conheciam minha voz, moravam em lugares que não tinha televisão, presidiários, isso tudo eu levava para o campo. Eu sabia que estava fazendo a alegria de milhões de pessoas".
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"O Flamengo foi minha segunda casa. Qual o lugar em que eu me sentia melhor? Era em casa. E o segundo? No Flamengo. Não tinha pressa de ir embora, era amigo de todo mundo. Não trocaria nada daquilo por uma Copa do Mundo, de jeito nenhum. Aliás, eu não trocaria nada mesmo para ganhar uma Copa. Mais ainda se fosse alguma coisa do Flamengo".

LEANDRO:

"Até me emociono quando falo em torcida, tenho uma ligação muito grande. Deletava qualquer problema particular quando entrava em campo. A torcida me fazia bem, eu queria escutar a torcida. É um ânimo, dá força, dá criatividade. Sempre joguei por mim e por eles [torcedores]. O meu melhor era o melhor para eles".
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"Quando eu comecei a me concentrar, em 1978, os caras mandavam na gente, ficavam 'Vai pegar bandeja! Pega a torrada! Traz a água! Não demora, não, hein!'. Era a turma dos mais velhos, Zico, Rondinelli, Júnior, Carpegiani, e eu fazia com o maior prazer. Estava servindo meus ídolos".
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"Outro dia eu estava em um programa de TV e começaram a falar sobre palestra motivacional. Eu acho válido. Mas eu acho que a motivação tem que sair de você mesmo. Como é que você representa um clube se não tem motivação? Eu sempre tive isso comigo".
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"Procuro levar sempre para o lado bom, não ficar triste, com saudade. Gosto do lado alegre, de pensar que foi bom. Ganhei dinheiro suficiente, tudo o que tenho devo ao Flamengo. As pessoas falam que hoje eu ganharia muito mais, mas estão enganadas. Ganhar o que eu ganhei em termos de conhecimento, de privilégio de ter jogado com jogadores fabulosos, isso não tem preço".

JÚNIOR:

"A grande vantagem que a gente tinha em relação aos outros [times] era justamente essa ligação, essa preocupação que a gente tinha um com o outro. 'Ô Julinho, tá gastando muito dinheiro, hein! Ô, Fulano, vai comprar carro por quê? Ainda está morando de aluguel!'. Essas preocupações é que fazem você se sentir em uma família. Não é no campo, correr por eles ou eles correrem por mim. No campo é obrigação. No Brasil e Uruguai que o Ramirez sai correndo atrás do Rivelino [em 1976, quando o Brasil ganha do Uruguai por 2 x 1, no Maracanã], nós estávamos vendo o jogo na concentração, pela televisão. Na hora em que estancou a porrada, a gente falou: 'Cadê o Zico?'. A gente queria saber onde estava o Galo, para saber se ele tinha apanhado ou não. 'Ah, não, tá ali, tá tranqüilo'. Para você ver qual era o sentimento".

Mansur e o Fla (ou: aprende, goleiro!)

Carlos Eduardo Mansur é um amigo muito querido. Dos bancos da faculdade, dos estádios de futebol, de sambas e de outros carnavais. Até apresentação de programa de rádio já dividimos, no microfone da Rádio Nacional, durante uns poucos meses. Chamava-se A hora do Flamengo e corria o ano de 1996.
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Eis aí o que mais temos em comum, o que já nos tinha aproximado imediatamente, anos antes, nos primeiros dias como ingênuos estudantes de jornalismo: a grande paixão, o amor incondicional pelo Clube de Regatas do Flamengo. Sendo que o Mansur é um conhecedor muito mais profundo das coisas, da história e das histórias do futebol e do nosso Fla. Além de ser um craque do jornalismo e das palavras.
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O cara que fez jornalismo com o objetivo definido, desde o começo, de cobrir futebol e de estar perto do Flamengo, vem sendo merecidamente premiado pela vida. Com pouco mais de um ano de formado, cobriu logo a sua primeira Copa do Mundo, em 98, mandado pelo saudoso Jornal dos Sports. Depois, trabalhou uns quatro anos no Lance, foi assessor de imprensa do Flamengo (!) durante outros três – ele até hoje não sabe, mas uma pequena lágrima me caiu na ocasião, quando tomei conhecimento do troço –, acho que em seguida esteve na organização do Pan do Rio e, desde 2007, está em O Globo. Sempre emprestando competência e talento a uma profissão que, em geral, anda ignorando solenemente tais atributos.
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Agora, lançou um livro: Meu Maior Prazer – Histórias de Uma Paixão, com o colega e também jornalista Luciano Cordeiro Ribeiro. Leitura obrigatória para rubro-negros e para todo mundo que gosta de futebol e, mais importante do que isso, para quem sabe que a vida, sem paixão, vale nada.
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O Mansur tem um humor fino, uma ironia – eu diria – cirúrgica, que vai no ponto certo, além de um jeito calmo e paciente até para defender pontos de vista muito particulares. Discussões, com ele, eram sempre dóceis, amenas – já viram um negócio desse? Filho exemplar, enche, inunda os pais de orgulho com o caminho que vem trilhando. Os mesmos pais que me tratavam com tanto carinho quando ia à casa deles para trabalhos em grupo, reuniões sociais ou pré-jogos do nosso time – que chegamos a acompanhar até pelo interior desse Rio de Janeiro...
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Durante muitos anos, o Mansur sempre disse que um amigo nosso, o Fellipe Awi – excelente repórter, premiado, um dos grandes textos que conheci – era “a estrela da companhia”. Isso porque o Awi logo cedo foi para O Globo e começou a fazer matérias especiais etc. etc. e até hoje tem merecida projeção, por assim dizer, inclusive comentando futebol na tevê. Pois no comecinho disso tudo, o Mansur carimbou-o com esse slogan e o troço pegou entre nós.

Pois ontem, depois de um bom tempo sem nos vermos, fui ao lançamento dar-lhe um abraço e pude dizer-lhe que a companhia, agora, tinha uma nova estrela – ele. Rimos, abraçamo-nos, tiramos fotos (fico devendo), e a vida seguiu.

Já nesta madrugada, lendo algumas das 30 e tantas entrevistas que compõem o livro, eu me emocionei um bocado, sobretudo com relatos de Zico e Leandro, esses monstros, cracaços de bola quando a palavra “craque” não era banalizada como hoje em dia. Relatos de bastidores e principalmente sobre o que é o amor por uma profissão, por um time, por uma torcida apaixonada de milhões e milhões de pessoas. Graças a Deus, pensei na hora, vi os dois jogarem.

Ultimamente, ando bastante emotivo. Não se preocupem, é só viadagem mesmo. Mas é que o Flamengo, de novo nas cabeças e jogando um futebol tão bonito, tem me trazido, em silêncio, intensas e imensas recordações de “velhos tempos, belos dias”, sabem como é?

Lembranças que agora são amplificadas pelo belo trabalho do Mansur e do Luciano, em plena reta final desse Brasileiro – que pode dar em nada, não importa. O que importa, meu amigo Mansur, é a levada que damos à vida, é a paixão, é o Flamengo e, como você mesmo disse na dedicatória, “a nossa amizade de sempre”. Um grande abraço.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Asneira

Disse o goleiro Bruno que “o torcedor do Flamengo é importante, é o 12º jogador, mas às vezes nos atrapalha um pouco”.

Mesmo sabendo que é melhor ouvir isso do que ser surdo, pergunto: quem é este rapaz para dizer uma completa asneira como esta?

Um bom goleiro, sem dúvida, e só. Não entende nada da história do Flamengo, não tem vivência suficiente ainda no clube para ter a dimensão do que ele representa para o seu torcedor de verdade – torcedor que, diga-se, vai muito além de jovens por vezes histéricos(as) que ficam tirando fotos com o celular para aparecer no placar e que nem o hino sabem cantar...

Meu caro goleiro, faça o que você sabe, trabalhe de boca fechada e respeite o torcedor rubro-negro. Ele está acostumado a títulos e, mesmo perdendo, aplaude os seus jogadores quando eles honram a camisa.

Você, Bruno, já deve saber disso, mas não custa lembrar: o Flamengo e o seu torcedor são MUITO maiores do que você, meu caro.

domingo, 22 de novembro de 2009

Um do João

Vamos movimentando de novo esta tela... Por hora, um samba lindo, com a marca João Nogueira / Paulo Cesar Pinheiro, que outro dia ouvi no rádio do táxi, na voz de Elba Ramalho, e era (é) de chorar.

As Forças da Natureza, no timbre inigualável de João - AQUI.

Até.

domingo, 15 de novembro de 2009

E no sábado seguinte...

Para Anézio, Cláudio e Bruno.
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Ando sem muito o que dizer ultimamente. Por isso - e por hora - quero só registrar que o sábado que passou foi um dos grandes dias que vivi neste ano que já toma o rumo de casa.

A decepção do fim de semana anterior se transformou na alegria de conversas e amizade em estado bruto, sincera e pura, reafirmada - sem palavras -, desta vez, em bares do Centro do Rio, com direito a muitas geladas e um passeio inesperado nessa jóia que é o Morro da Conceição.
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Divertimo-nos feito crianças e ainda tivemos a leveza como companheira.

domingo, 8 de novembro de 2009

Portela, túmulo do samba

"Eu sou Portela / Desde os tempos de criança / Ainda guardo na lembrança / Algo e vou revelar"
('Portela desde que eu nasci', de Monarco)

O meu amor pela Portela não tem fim. Nunca terá. Um pouco dele, muito pouco, pode ser vislumbrado aqui, aqui e aqui.

É em nome desse amor, que me chegou não sei por que mãos - posto que nasci e cresci numa família desde sempre repleta de mangueirenses -, é por ele, que me faz chorar todo ano quando a escola entra na avenida, é só por ele - enfatizo - que digo agora, com muita, mas muita tristeza (porque preciso dizer): não volto mais à quadra da minha escola.

A Portela está, e não é de hoje, jogando no lixo as suas mais caras tradições. E o faz de uma maneira que, para mim, passou dos limites.

Tentarei ser breve, mas preciso contextualizar.

Para quem está fora do Rio (e este blog, não sei como, tem três ou quatro leitores nesta situação), faz-se necessário informar que fazia, ontem, nessa amada cidade, "um calor de rachar catedrais", como dizia Nelson Rodrigues. Em Madureira, onde chegamos poucos minutos antes das quatro da tarde, os termômetros marcavam uns 58 graus, à sombra. E isso, meus amigos, era tudo o que eu queria. Há semanas tinha encasquetado que teria de novo um sábado de samba e feijoada na minha amada escola, o que não vivia há quase dois anos.

Nada seria novo para mim mas, não sei a razão, planejei uma grande tarde, uma tarde carioca - suada, pós-praia, regada a cerveja, samba e amizade.

Tudo ia bem até ali pelas seis da tarde. Foi quando a Velha Guarda Musical, sem nenhuma explicação, encerrou a sua participação. Para quê? Para dar lugar a um grupelho de pagode (no mau sentido do termo). A princípio não entendi. Mas foi aí que a ficha caiu. E não pude mais fingir que não via o que vejo há anos. Tudo fez sentido.

De frente para o palco, olhei para a direita: "área vip" ("pausa para o vômito", apud Eduardo Goldenberg). Em seguida, virei-me para a esquerda: "área vip". Um pouco atrás desta última, um deprimente arremedo de camarote, envidraçado e com ar condicionado, para receber meia dúzia de puxa-sacos que NADA sabem e NADA têm a ver com a história da Portela. Por fim, no meio da parte coberta da quadra - a mesma quadra onde já vivi tantos momentos tão bonitos -, como um corredor apertado que termina no palco, o único espaço livre onde, encurralados, permitem-nos sem pulseiras e que tais. Um nojo completo.

Nojo que se alinha ao funk que andam tocando nos ensaios da Mangueira; à quadra-boate do Salgueiro, com o seu ar refrigerado e os seus famosos de araque; à Liesa e seus coronéis que há décadas estupram o carnaval do Rio de Janeiro.

Não entrarei em detalhes de uma outra situação muito desagradável, que não por acaso se deu logo depois de o tal grupo assumir o palco e que envolve essas tais pulseiras para "vips" - e que me fez discutir com uma "porteira" de cercadinho e, em seguida, com uma dita assessora de imprensa que merece tão somente o meu desprezo completo. As meninas do nosso grupo só queriam se sentar um pouco. E eu só queria fazer ver àquelas senhoras, que vieram tirar satisfação, que a Portela não é assim, com um grupo daqueles no palco e com um (des)tratamento daqueles aos seus freqüentadores comuns, como nós.

No meio de toda a decepção, a Velha Guarda... A que papel se presta... Entendi direito? É isso mesmo? Por uns trocados canta duas horas e se manda? Não resiste, não grita, não liga de ser escurraçada - como já fora ao ver o portão da Sapucaí sendo-lhe batido na cara?

Um parântesis. Entendo que uma agremiação possa usar sua quadra para outros shows e eventos que não de samba. Não concordo em hipótese alguma com isso, mas entendo. Eu mesmo, numa madrugada de 1997, aturei uns quatro grupos de pagode lá para poder, enfim, assistir, quase de manhã, a um histórico Zeca Pagodinho fazer o diabo, e umas duas mil pessoas virem abaixo cantando cada música que ele apenas começava (sobre isso, contei um pouco aqui, em comentário que um tempo atrás foi gentilmente "destacado" por Carlos Andreazza no seu Tribuneiros). Fecha o parêntesis.

Este aqui é um desabafo que faço com uma ponta de mágoa e com uma tristeza que está me causando uma dor incômoda. E que - prestem atenção - nada tem a ver com a instituição Portela, de Paulo e seus fundadores, de tanta glória em 21 títulos, da Velha Guarda histórica, da Águia altaneira, de Marquinhos de Oswaldo Cruz - esse doce de pessoa, sambista que retomou a tradição do Trem do Samba e que, minutos antes de a minha decepção se materializar, tinha sido tão amável ao dizer do prazer de nos revermos na nossa escola, em plena fila do caixa. Essa é a Portela que guardo no meu coração, no que ele tem de ligação mais visceral com o samba. E é a de Paulinho da Viola, de Waldir 59, de Manacéa, de Alberto Lonato, de Casquinha, de Argemiro Patrocínio, de Jair do Cavaquinho, de Monarco, de Alcides Malandro Histórico, de Mijinha, de Aniceto, de Antônio Candeia Filho...

Portanto, meus amigos - e sei que já os canso -, é com sincera tristeza que chego à decisão que agora reforço: não volto à quadra da Rua Clara Nunes. Não volto mais à Portela. Prefiro ficar distante, agarrado a um passado que, em grande parte, nem vivi. Não tem problema.

É óbvio ululante que a minha ausência e o meu protesto não farão a menor diferença. Não importa. Fomos desrespeitados, destratados, escanteados - musicalmente primeiro, e no trato, na falta de trato, depois.

Do jeito que está, a Portela enterra o samba e o sambista. Eis a triste constatação que precisava dividir com vocês.

Até mais.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Atendamos ao chamado do Simas

Eduardo Goldenberg viu primeiro e chamou a atenção, mas quero aqui pegar carona e dizer com toda a ênfase possível: é imperativo que qualquer pessoa que goste DE VERDADE do Rio de Janeiro e que defenda COM INTRANSIGÊNCIA os verdadeiros valores dessa cidade, é necessário e urgente que leia (e ingresse nas fileiras desse bom combate) o texto mais recente do querido LUIZ ANTONIO SIMAS.

A íntegra está AQUI.

Quero apenas dele destacar, e poderia ser qualquer trecho, o parágrafo abaixo, que pode sair do blog do Simas para figurar em qualquer página impressa como parte da mais bela crônica escrita em português nos últimos, o quê?, 20 anos.

Segue o trecho a que me refiro - mas leiam lá o troço todo que é para entender de fato do que se trata. Simas, meu caro: não passarão!

"Ali, no velho buteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência: Laroiê!"

Duas da Portela

Neste meio de semana ensolarado que antecipa um sábado glorioso de samba na Portela - apesar dos pesares desses "tempos modernos", é a Portela, gente! -, duas obras de dois dos maiores compositores da azul e branco.

Monarco a a Velha Guarda, magistrais, cantam:

Nascer e Florescer, de Manacéa - AQUI;
e
Portela Feliz, de Zé Keti - AQUI.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Barbeiro

- Mestre, eu ia lhe oferecer uma leitura, mas a patroa taí, ... - sussurrou-me o barbeiro, dia desses. A um "Que nada, bobagem, passa pra cá!", ele sorriu largamente e me entregou a "revista masculina" para passar o tempo.

Sábado agora, éramos uns quatro lá, tensos para conferir o ensaio fotográfico da "atriz e modelo" Juliana Alves, que um quinto sujeito não largava por nada. Notando a aflição do cara cujo corte estava quase no fim, o da tesoura aproximou-se:

- Chefe, se não der tempo aí, confere essa aqui, ó! fresquinha, chegou ontem. Serve como aperitivo, pra aquecer enquanto ele não libera ali - disparou, oferecendo uma outra publicação ao cliente, em grande esforço para o bem-estar do mesmo.

Vejam que maravilha. Um barbeiro tradicional, das antigas, classudo. Tratamento vip, para mim, é isso.

Na véspera do aniversário do meu avô Pará (falei um pouco dele aqui) e na antevéspera deste 02 de novembro, todo esse ambiente me transportou a um passado de piadas, tesouras e amizade. É que desde os 10 anos de idade e, daí, por uns 22 ou 23 seguidos, cortei o cabelo com o mesmo barbeiro: João Monteiro (ou, simplesmente, Monteiro). Fui-lhe fidelíssimo em seus três endereços de Copacabana.

Português que torcia pelo Botafogo mas que gostava um bocado do Flamengo - "É o time da minha filha mais velha e dos grandes amigos que fiz", sempre dizia -, era amigo de décadas do meu saudoso avô e tratava a mim e a meu irmão como netos (ou sobrinhos ou afilhados).

No passado de um Rio de Janeiro dourado, onde chegou para fazer a vida, Monteiro logo se destacou. Inventou o corte a navalha, ganhou concursos, prêmios e participava do Almoço com as Estrelas, famoso programa do Perlingeiro, pai, onde exibia sua arte. Era um craque.

Mesmo muitos anos depois desse tempo, como um Jamelão das tesouras, não gostava de ser chamado de barbeiro, não. Intérprete da vontade da gente, era cabeleireiro, ora, que história era aquela de puxador - digo, de barbeiro?

Monteiro era boa praça e piadista, mas repetia muitas piadas manjadas que ele mesmo já contara inúmeras vezes. Isso, no fim das contas, era o que tinha mais graça porque depois, entre nós, ríamos de ter ouvido as mesmas histórias, do mesmo jeito, e de ele achar que nunca tinha nos contado.

Viu-nos moleques, adolescentes, adultos. Tinha sempre um refrigerante gelado para nós. Quando se mudou para um salão na Ronald de Carvalho - digamos, menos nobre que o da Barão de Ipanema, onde havia geladeira e que tais - mandava comprar no bar da esquina a nossa bebida infantil: ganhávamos uma garrafa cada, para ir tomando enquanto estávamos lá. E olha que tinha vez em que demorávamos, porque o Monteiro, artífice da sobrevivência como um bom carioca, também era uma espécie de corretor de imóveis nas horas vagas, alugando apartamentos por temporada. O problema é que essas "horas vagas" eram cada vez maiores e, não raro, ele deixava os clientes esperando na cadeira, no meio do corte, para ir mostrar um apartamento ali ou acolá, nas redondezas...

Época de fim de ano, fazia questão de que eu tomasse com ele uma taça de vinho, ou um copo de cerveja, um licor, alguma coisinha para brindar. E sempre dizia: "Antes do réveillon volta para apararmos o corte, na garantia!". Aliás, nunca havia pressa para acertarmos a conta que tínhamos lá, mesmo depois que o meu avô se foi.

Um dia, ele resolveu, sem ser solicitado para tanto, cortar o cabelo do meu irmão de um jeito diferente do habitual. No fim, todo pimpão, esperou o elogio. O Guilherme, então ainda uma criança, cravou:

- Monteiro, ficou uma merda!

Monteiro riu que se acabou e, admirado, por anos e anos a fio contava a história a quem se sentasse na sua cadeira - inclusive a nós mesmos -, enaltecendo-a como um exemplo de sinceridade e de personalidade do seu querido cliente-mirim.

Mas, de tantas cenas, diálogos e folclores dele e sobre ele, o que nunca - nunca mesmo - vou esquecer é o beijo que deu no caixão do meu avô. Orações feitas, despedidas idem, soluços e tanta coisa ainda por dizer. Então, segundos antes de fecharem com cimento uma daquelas "gavetas" do São João Batista, o Monteiro enfiou a cara lá dentro, beijou a ponta do caixão, e se afastou, em silêncio.

Monteiro morreu há coisa de um ano e pouco, dois. Quando do ocorrido, eu já não lhe era mais fiel. Um pouco doente, suas idas ao estabelecimento tornaram-se inconstantes - cheguei a esperar horas por ele, numa manhã - e eu já estava pulando de cadeira em cadeira por aí. É que, não podendo mais tê-lo "direito" como barbeiro e personagem do cotidiano - essa coisa de que tanto precisamos, para colorir o dia a dia por vezes tão cinzento -, simplesmente, e sem adeus, deixei de ir lá - e, no lugar de arranjar outro, passei a topar qualquer um.

No fundo, acho que não fui mais porque não suportava vê-lo tão abatido, falhando, cochilando no sofá em plena luz do dia, com as mesmas histórias sendo contadas sem a vivacidade de outrora, e, principalmente, com as mãos já sem a mesma precisão de toda uma vida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ele recomenda

Segunda passada foi dia de Renascença e Pedra do Sal.

Na Pedra, uma mesa cada vez melhor, repertório inacreditável, bonito de doer.

No Rena, mais cedo, o couro comendo solto na roda e o Doutor Dráuzio em-be-ve-ci-do - porque samba e cerveja, afinal, fazem um bem danado ao coração...