Alô, Gabriel! Que lama boa, meu cumpadi! Que inveja...Rapaz, quando encontrei o meu (o nosso) querido amigo Júnior de Oliveira na Marquês de Sapucaí, mais precisamente na concentração da Presidente Vargas, ali pelas quatro da madrugada de domingo, um bom presságio me veio, de imediato. "Bem que o Império podia arrebentar", pensei, ao vê-lo, imperiano nato, de fato e de direito. Nos abraçamos, o neto do velho Silas fez no celular a foto que ilustra essas palavras, conversamos um pouco, e segui pra ver o Império Serrano passar.
Ver, não, testemunhar. Passar, não, sambar, flutuar. O que fez aquela gente da Serrinha, de Madureira e adjacências, debaixo daquela água intensa, incrível, foi de arrepiar até poste.
Meu amigo Waldemir Teles, o Cabeça, produtor de novelas que traz o samba na veia e cobre desfiles há uns 20 anos, chorou feito criança. Momentos antes, o querido Marquinhos de Oswaldo Cruz, portelense inconteste, me dizia, no lado da concentração que vai pros Correios, vestido com a camisa do Império: "Rapaz, o pessoal pega no meu pé, mas a gente tá junto aqui. Sou do tempo em que a gente assistia ao desfile pra ver se ganhava Portela ou Império. Antigamente, o desfile era só no domingo e, na segunda, as duas escolas saíam pelas ruas de Madureira, Império e Portela, tudo misturado". Ô, Marquinhos, deu sorte, hein!? Que maravilha!
Esse prólogo todo é pra dizer que - mil perdões, Beija-Flor - o carnaval 2008 é todinho do Império Serrano. É integralmente da Serrinha e de Madureira, a grande capital do subúrbio. É daquele canto inacreditável que envolveu a Sapucaí encharcada, já quase na manhã de domingo. É da garra, da emoção em estado bruto, de um carnaval que ainda vale a pena, apesar das Escolas de Samba S.A.
Ele é do Império Serrano, orgulho (na companhia da velharia de respeito de Portela, Mangueira, Salgueiro e Vila Isabel), glória dos sambistas do Rio de Janeiro. O Império que nasceu em 1947, fruto da insatisfação com o autoritarismo, resultado da busca de liberdade de opinião (a história é conhecida: em 46, integrantes da escola de samba Prazer da Serrinha que não se conformaram em ter que desfilar, de última hora, com um samba que não tinha sido eleito – e que entraria no lugar de um legítimo Silas/Mano Décio –, saíram pra fundar outra escola. O objetivo era construir uma nova agremiação onde todos pudessem decidir. E assim ela foi campeã logo nos quatro primeiros anos, num bonito começo que teve a marca da democracia e da liberdade).
No fundo, este que volta, mais uma vez, ao convívio dos grandes, é o mesmo grande Império Serrano onde pela primeira vez uma mulher ganhou um concurso de samba enredo (Dona Ivone, com Silas de Oliveira, “Os Cinco Bailes da História do Rio”, em 65) e onde a própria concepção de samba-enredo ganhou forma (antes, qualquer samba podia ser cantado durante o desfile).
É o Império dos sindicalistas do cais do porto, de Tia Eulália, de “Aquarela Brasileira”, da resistência da cultura negra, da Estrela de Madureira, de João Bosco, dos agogôs na bateria, do jongo da Serrinha, de São Jorge Guerreiro, de Roberto Ribeiro, de Aloísio Machado, de Ivan Milanês, de Zé Luís, de Mestre Fuleiro, de Mano Décio da Viola, de Hélio dos Santos, de Wilson das Neves... E tem gente que pensa que escola de samba se faz com outro tipo de artista.
É em homenagem a tudo isso - e como que resumindo o que de melhor eu vi no carnaval - que termino com a letra (só a letra, que não sei botar áudio nesse troço!) de "Menino de 47", obra-prima de Nilton Campolino e Molequinho. Beija-Flor? Ah, deixa isso pra lá, rapaz!
"Menino de 47
De ti ninguém esquece
Serrinha, Congonha, Tamarineira
Nasceu o Império Serrano
O reizinho de Madureira
Só se falava na Portela
Na Estação Primeira de Mangueira
Seu padrinho, São Jorge, santo guerreiro
Que lhe deu prestígio e glória
Pra sambar o ano inteiro"
11 palpitando:
De emocionar este post. Obrigado mesmo. E saudações imperianas!
Sinta-se em casa, amigo.
O Império merece. Se quiser, dá uma lida na coluna do Tudo de Samba em http://www.tudodesamba.com.br/conteudo.asp?id=735.
Ali falo um pouco mais sobre o que penso deste carnaval nilopolitano...
grande abraço.
Aê, Edu. Mandou bacana. Desculpe a preguiça, mas acabei botando um link lá no Front chamando pro teu texto. De qualquer forma, eu não faria melhor mesmo. Fica elas por elas. Abração.
Valeu, Cesar!
Aquela observação sobre o Gabriel convocando alguém pra cantar sambas de terreiro da Beija-Flor e da Grande Rio foi ótima. E ele foi sacana na medida, o Da Muda!
Show de bola.
Grande abraço, amigo. (p.s.: mais sobre o que penso sobre este carnaval, se vc tiver tempo, confere lá no Tudo de Samba).
Já tinha conferido, Edu.
Belo texto, lindo o Império. Ainda há esperança na capital do subúrbio. Bjs.
muito bom, muito bom texto!
IIIMPÉEEERIOOOOO!!!!
mesmo c a vitória da B. Flor, este carnaval foi bem melhor q o anterior... Salgueiro vice, Portela entre as 6 meses, Império vencendo...
e o carioca cada vez mais envolvido com os blocos, pintando a cara, pondo fantasia...
é a vitória do samba! :)
bjão pra ti, Renata e Luísa!
Valeu, Eugênia!!!!!!!!!!!!
bj
A verdade é que lendo este post e tb os comentários, dá claramente para observar a alegria de quem realmente gosta do carnaval no Rio. É sempre muito bom ir aos blocos e encontrar as mesmas(força de expressão) pessoas que encontramos no bloco de ontem ou de agora a pouco, ou seja, cada vez mais um grande nº de pessoas realmente curtem o carnaval de rua, os blocos, a cerveja, aquela foto de recordação. Aqueles que não querem aceitar que apesar do desgoverno reinante em nossa cidade ela sobrevive e como disse a Eugênia, este ano o carnaval foi ainda melhor que o de 2007. E com Madureira(berço do samba) bem representada pelos resultados da Portela e do meu Império Serrano, fechou com nota DEZ! Quem não gosta que continue viajando ....Nós ficamos.
Tremendo texto, que só tive oportunidade de ler agora. Tuas impressões sobre o Império serviram para que eu, que desfilei debaixo daquele temporal, tivesse um pouco mais de certeza de que aquela foi uma madrugada inesquecível na história imperiana e do samba carioca. Valeu muito!
Abraço
Paulo: bota alegria nisso! Mesmo no meio da loucura urbana (com violência e que tais), a gente tem que ir tocando a(s) nossa(s) aldeias, com nossos amigos e as pessoas que nos fazem bem. É isso que nos salva e salvará o Rio!. Abraço.
Simas: uma honra tê-lo aqui, você, uma retidão de princípios, uma inteligência de mãos dadas com a História e, pelo pouco que acompanho (via o seu blog, o Gabrielzinho e o blog do Goldenberg), um defensor de valores fundamentais, que eu compartilho.
Um grande abraço, de um portelense que ama o Império Serrano e as coisas do nosso Rio.
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